sábado, 11 de junho de 2011

Balada

Balada
...............a Orpheu

Teu coração como chumbo naufraga
Ancorado à praia mais silente,
Impotente a todo vento que corta
A tua fina face e o verso tão suave.

Seu corpo dilacerado e seu canto
Se espalham no quebrantar das ondas
Com tua sombra que aos pés submerge
Tão imóvel qual teu rosto petrificado;

Agora, ela está só. E tu, sozinho,
Estrela aos céus desamparado,
Revoga teu destino, maldição:

São grandes teus anseios, oh Poeta!
Mas no firmamento, o horizonte gris,
Tua inquebrantável vontade ao mar.

4 - 6- 2011

Um Chiste...

... A vida não passa
................ de um suspiro
...........................o
...........................p
...........................r
...........................o
.......... Flerte delicado com as
.......................estrelas
.......... que cruzam os céus
.........................e
................ M O R R E M
................Sem nada dizer,
............. sem nada deixar,
....... Se não, o brilho pálido
....de uma eternidade
...........................que se APAGA.

terça-feira, 15 de março de 2011

Rua dos Carvalhos

Hoje, estou somente eu,
Na rua fumo como todos os dias,
Estou cinza, triste, noturno,
Como sempre estive,
E comedido lembro que sou um poeta
e que preciso escrever.
As ruas já me são familiarizadas,
em menos de uma semana,
Entretanto, ainda sou um estrangeiro
Dentro de meu próprio país.

Amanhecerá como todos os dias,
A luz da manhã irradiará o meu quarto,
meus livros, meus móveis recém comprados,
novos ainda que usados, que me remetem a uma nova vida,
uma nova casa, um novo porvir.
Ainda assim, estou só.
Hoje estou sereno, calmo,
Completo em mim mesmo, e sinto
suavemente a solidão das almas
se instaurar em toda a minha repletude.
Há braços, mas os únicos braços que encontro
são os meus. (Quando estendo as mãos, é claro).

Não quero beber, diminuo os cigarros
conforme a intensidade se esvanece,
Lembro de meus projetos e de meus amigos,
Reconheço a luz acesa da janela
de meus novos amigos, e sorrio, sem muita graça
ao saber que se encontram dormindo,
e esqueceram, como sempre, a luz da sala acesa.
Recordo de meus amigos antecessores,
De meus queridos que deixei para trás.
Sinto teus hálitos, seus corpos, seus abraços,
E ouço o som de pássaros imaginários,
que para mim, são silvestres, e selvagens apenas,
habitam os topos dos céus com suas asas de fogo e sombra.
Hoje, na rua do Paralelo, não há ninguém,
mas ainda se encontram dois homens tomando
suas refeições noturnas. Eles não me dizem nada,
Somos desconhecidos.
Nos desconheceremos sempre, enquanto sempre,
e formos humanos mergulhados no seu próprio egoismo.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Canção ao Einhleuchtend

III

Corre por entre as matas
a tua altura mais que ingrime,
Onde tudo o que a ti é inverso
Se interage na sua forma mais séria.
Sóbrio, o instante te cala,
Sem voz, ruge teu instinto mais sagrado
E faz tremer teus olhos tão incautos.
Aonde está tua voz agora?
Teus passos não se encontram sobre
esta terra desgarrada de teus vícios.
Teu nome, vil, é atado pelos galhos
flexíveis das almas que se despertam
sobre o verde malogrado dos dias;
E teu corpo, palavra estrangulada,
É deitado no meio das copas, onde
tudo rasteja e vôa.
Dentro deste silêncio, teu nome levado
ao inverso, percorre pela outra face
daquilo que te compõe e faz-se compor.
E este sorriso escancarado na face
se despede, torna-se gracejo indesejado
diante do solene que eleva e puxa-te para baixo.
Cala-te diante a origem.
Cala-te e segue pelo corredor estreito,
Abaixa-te e esgueira por entre a verdade
que te morde e te arranca a pele e o som,
deixando-te ensangüentado a percorrer o caminho
em sua metade, sem escapatória: se não,
aceitar e emudecer. Pois teu nome
é superfície, luz que reflete e cega.
Teu nome é a verdade não dita.

Falsos Haikais e Haikai Completo.

I

Sobre meu túmulo
Adormecem
Um lobo e uma flor de cerejeira.

II

Naquela noite ,
Estavam cravados seus olhos
Sobre meu peito.

III

Vindo das profundezas
Me perseguiam,
Dois globos de escuridão.

IV

E diante de tantos
mistérios, somente posso
concordar: Tudo é.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Um novo capítulo [Maio de 2010]

Um Concerto de Violinos

(Inacabado)


“Uma xarada: Um homem está sentado em um banco à frente de uma grade.

Delírio tem os sonhos em mãos, como joguetes. A grade começa a cair em cima

do homem; Sonho começa a ceder aos toques de Delírio. O Sonho se vê sendo esmagado

pela grade. Entrou no lugar do homem.

Aonde o homem está?”



Vestígios da Madrugada:


D. está sentado na beira de um mar. O céu é rosado ea areia mais assemelhase a sal, de tão esbranquiçada e exígua que se apresenta. Não restam muitos vestígios de pgadas no chão. Apoiando a têmpora com a palma da mão D. Contempla o mar. Seus olhos são perdidos na vastidão. Ele suspira.

É noite. Um homem e uma mulher encontram-se em um baile de máscaras. Eles dançam e conversam a noite inteira. No fimda festa, ele a toma nos braços e a beija. De mãos dadas eles saem e põem-se a caminha pela calçada. Do outro lado, a orla marítima, esvaziada.

Apenas gaivotas testemunham a madrugada.


À tarde ela se concentra em manifestos políticos, distribui panfletos, inflamadiscursos embriagados e, entrega doses generosas aos mendigos na rua. Eles começam a sorrir e berrar. É uma dor muito forte, parece que os vai romper. Ainda assim, eles não querem que ela se vá. Têm uma certa dose de praser... D. Os abraça solenemente e se põea dançar entre eles. A praça está repleta de transeuntes, e ainda assim, sem ninguém.


Um corvo pousa nos ombros de D.

    • Você sabe que a sabedoria de um tolo não lhe libertará neste momento...

    • E não faz sentido você dizer isto a mim neste momento.

Ele permanece imóvel. Apenas as suas vestes balançam suavemente ao vento. Um ponto de sombra na imensidão espumante.

    • Eu gostaria de poder te entender, sabia?

    • Hm...

    • Eu sei que não faz diferença, mas eu me importo, sabia?

    • Mas a mim não...

    • Doeu, não foi?

    • Muito menos do que eu acharia que fosse doer.

O corvo fica pulando de um ombro ao outro, tentando posicionar-se da maneira mais confortável possível.

    • E agora D. O que fará?

    • Apenas o que precisa ser feito... Responsabilidades são para isso, não? Distração.

O corvo o encara tristemente. Ele continua olhando para frente, sem piscar.


O homem acorda pela manhã com o som do rádio programado. Desperta às 6:30. Ele levanta-se animado, movimentando-se, conforme a música que sai pelos pequenos auto-falantes, direciona-se ao banheiro.

    • “Everybody, loves my baby...” ♪

Ducha fria e escova de dentes. Camiseta básica branca, bermuda creme, tênis de caminhada preto. Um “olá” para a pequena largatixa presa na parede do quarto e uma porta que se fecha. De mochila nas costas ele toma um ônibus para lugar qualquer.


D. caminha por entre a rua. Está deserta. Ainda não chegou o amanhecer. Um casal encontra-se sentado à beira-mar, abraçados, eles conversam entre beijos. As palavras são inaudíveis, sussurros entre a explosão das ondas. Fins que justificam os meios.

D. os observa e contempla o rosto dos amantes. E de repente, apavora-se, sem saber o que fazer. Fixa o olhar no rosto do homem e pensa em ir falar com ele. Acena, mas ele não a reconhece; pior, parece simplesmente que não a vê. Ela acena uma vez mais, sendo seguidamente ignorada. Ela se constrange, confusa. Aperta as mãos contra o peito, e encobre o sorriso dos olhos anteriormente expostos e explicitos. Decide-se e dá de ombros, pondo-se a caminhar orla a baixo, em direção a um pequeno rochedo. Ela não parece mais se importar.


O homem pára por um instante e olha nos olhos da amada com uma expreção incômoda.

    • O que foi, querido?

    • Não sei, parecia que havia alguém aqui.

Os olhos percorrem a praia. Não há viv'alma presente, apenas as luzes dos postes e gaivotas adormecidas na areia. Ela percorre o olhar em torno de si e nada vê.

    • Deve ter sido só imprensão sua...

Diz ela tomando-o pelo rosto.

    • Talvez...

    • Shh...

Pedindo para ele ficar quieto, beija-o.

Do outro lado o mar começa uma fria garoa, lá acabou de anoitecer, completamente. Tudo é breu e brilho: gotas de chuva triste e nebulosa.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Regresso

Canto porque o amo.
Canto e só por isso sou completo,
Enquanto calado: sou nada.
Mudez entorpecida.
Eu parti, como todos devem,
Como ninguém deveria
E deixei para trás os seus passos
A tocar a vida devagar.
- Esperando meu regresso? -

Sem resposta observo a estrada
Ela me sufoca e me sublima
Num instante de fúria e fogo.
Um foco que não sei se devo perseguir.
Eu prometi que não largaria nada
Prometi que continuaria, contudo,
A seguir pegadas suaves de uma vontade
maior a todas as vidas. E ainda
assim, negligencio seu apelo,
E faço da desordem um propósito,
Sem sentido, sem razão...
E busco enquanto se esvai a fumaça e o trem
Sua mão a encontrar-se com a minha.