quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Um novo capítulo [Maio de 2010]

Um Concerto de Violinos

(Inacabado)


“Uma xarada: Um homem está sentado em um banco à frente de uma grade.

Delírio tem os sonhos em mãos, como joguetes. A grade começa a cair em cima

do homem; Sonho começa a ceder aos toques de Delírio. O Sonho se vê sendo esmagado

pela grade. Entrou no lugar do homem.

Aonde o homem está?”



Vestígios da Madrugada:


D. está sentado na beira de um mar. O céu é rosado ea areia mais assemelhase a sal, de tão esbranquiçada e exígua que se apresenta. Não restam muitos vestígios de pgadas no chão. Apoiando a têmpora com a palma da mão D. Contempla o mar. Seus olhos são perdidos na vastidão. Ele suspira.

É noite. Um homem e uma mulher encontram-se em um baile de máscaras. Eles dançam e conversam a noite inteira. No fimda festa, ele a toma nos braços e a beija. De mãos dadas eles saem e põem-se a caminha pela calçada. Do outro lado, a orla marítima, esvaziada.

Apenas gaivotas testemunham a madrugada.


À tarde ela se concentra em manifestos políticos, distribui panfletos, inflamadiscursos embriagados e, entrega doses generosas aos mendigos na rua. Eles começam a sorrir e berrar. É uma dor muito forte, parece que os vai romper. Ainda assim, eles não querem que ela se vá. Têm uma certa dose de praser... D. Os abraça solenemente e se põea dançar entre eles. A praça está repleta de transeuntes, e ainda assim, sem ninguém.


Um corvo pousa nos ombros de D.

    • Você sabe que a sabedoria de um tolo não lhe libertará neste momento...

    • E não faz sentido você dizer isto a mim neste momento.

Ele permanece imóvel. Apenas as suas vestes balançam suavemente ao vento. Um ponto de sombra na imensidão espumante.

    • Eu gostaria de poder te entender, sabia?

    • Hm...

    • Eu sei que não faz diferença, mas eu me importo, sabia?

    • Mas a mim não...

    • Doeu, não foi?

    • Muito menos do que eu acharia que fosse doer.

O corvo fica pulando de um ombro ao outro, tentando posicionar-se da maneira mais confortável possível.

    • E agora D. O que fará?

    • Apenas o que precisa ser feito... Responsabilidades são para isso, não? Distração.

O corvo o encara tristemente. Ele continua olhando para frente, sem piscar.


O homem acorda pela manhã com o som do rádio programado. Desperta às 6:30. Ele levanta-se animado, movimentando-se, conforme a música que sai pelos pequenos auto-falantes, direciona-se ao banheiro.

    • “Everybody, loves my baby...” ♪

Ducha fria e escova de dentes. Camiseta básica branca, bermuda creme, tênis de caminhada preto. Um “olá” para a pequena largatixa presa na parede do quarto e uma porta que se fecha. De mochila nas costas ele toma um ônibus para lugar qualquer.


D. caminha por entre a rua. Está deserta. Ainda não chegou o amanhecer. Um casal encontra-se sentado à beira-mar, abraçados, eles conversam entre beijos. As palavras são inaudíveis, sussurros entre a explosão das ondas. Fins que justificam os meios.

D. os observa e contempla o rosto dos amantes. E de repente, apavora-se, sem saber o que fazer. Fixa o olhar no rosto do homem e pensa em ir falar com ele. Acena, mas ele não a reconhece; pior, parece simplesmente que não a vê. Ela acena uma vez mais, sendo seguidamente ignorada. Ela se constrange, confusa. Aperta as mãos contra o peito, e encobre o sorriso dos olhos anteriormente expostos e explicitos. Decide-se e dá de ombros, pondo-se a caminhar orla a baixo, em direção a um pequeno rochedo. Ela não parece mais se importar.


O homem pára por um instante e olha nos olhos da amada com uma expreção incômoda.

    • O que foi, querido?

    • Não sei, parecia que havia alguém aqui.

Os olhos percorrem a praia. Não há viv'alma presente, apenas as luzes dos postes e gaivotas adormecidas na areia. Ela percorre o olhar em torno de si e nada vê.

    • Deve ter sido só imprensão sua...

Diz ela tomando-o pelo rosto.

    • Talvez...

    • Shh...

Pedindo para ele ficar quieto, beija-o.

Do outro lado o mar começa uma fria garoa, lá acabou de anoitecer, completamente. Tudo é breu e brilho: gotas de chuva triste e nebulosa.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Regresso

Canto porque o amo.
Canto e só por isso sou completo,
Enquanto calado: sou nada.
Mudez entorpecida.
Eu parti, como todos devem,
Como ninguém deveria
E deixei para trás os seus passos
A tocar a vida devagar.
- Esperando meu regresso? -

Sem resposta observo a estrada
Ela me sufoca e me sublima
Num instante de fúria e fogo.
Um foco que não sei se devo perseguir.
Eu prometi que não largaria nada
Prometi que continuaria, contudo,
A seguir pegadas suaves de uma vontade
maior a todas as vidas. E ainda
assim, negligencio seu apelo,
E faço da desordem um propósito,
Sem sentido, sem razão...
E busco enquanto se esvai a fumaça e o trem
Sua mão a encontrar-se com a minha.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Vazio (Rascunho)

E agora
Com a corda no pescoço
O cano bem apontado sobre a têmpora
Já não tem para onde ir.
o claro e o escuro se mesclaram
Junto aos olhos que te buscaram
E Nada, deixaram-te o vazio
Que nunca descansa...
Para onde ir?
Passaste a vida inteira
A destruir as possibilidades
Como num frenesi
Que jamais te pertenceu
E este oco vácuo que te persegues,
E só te restas o gatilho
também esvaziado,
Em dias que não sabem se resignar.
Teve todas as oportunidades,
da fuga à grandeza,
E no entanto, afogou-as em lágrimas
Estáticas.
Sentado no chão do banheiro
enclausurou tua vida
numa ânsia de evaporação
que, pestimosamente, só serviu-se
da fumaça, para tentar enganar
o buraco que se formava.
E agora, não há mais para onde ir.

Desacreditaste de tudo?
Desacreditaste de ti mesmo!
Afundou-se a esmo em um cais
fingindo sonhar marés.
E o dia põe-se a nascer,
As núvens despedem-se de ti,
A liberdade não passou de um sonho bom
que jamais chegou a acreditar ter.
O amor? Desprega este de teu seio
petrificado.
Engole a seco este som que se esvai.
Pois resta apenas este vão que te instaura.
Não, não há mais palha que te preencha...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Balada Marítima II

Balada Marítima II

Morre, como morre a maré,
Serena, incauta
Como o suspiro de todos os
Deuses.
E atravessa doce
o silêncio de todas as praias.
Silente como o canto das sereias
Por cima de todas as pedras
................de todos os montes
................de todos os muros.
E grava com sua voz encouraçada
...O teu rugido mais que distante,
...O teu choro mais que suave,
...A tua vida inteira de tormentas
que se fez escrita
por cima da estrada e do rio
e desaguou como foz
no maior de todos os oceanos,
e se afoga, em um redemoinho,
indo ao fundo de seu aspecto
em um abismo estonteante
que fez, por si, despertar
certo de sua maior grandeza.
......O mar, que nunca termina.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Solilóquio à beira-mar (Rascunho)

Solilóquio

Essa saudade se instaurou
em meu peito como uma mancha,
Como uma tormenta se instaura
no meio do oceano, e me carregou
como uma nódoa negra
para as terras mais além,
e cravou em meu semblante
tal sombra, e encostou a sua
face à minha como brisa que
se desfaz.
Essa saudade se fez mais forte
que os dias que nada trazem,
nas horas que sempre carregam
meus olhos 'inda mais distantes,
e me arrastou como fagulha noite adentro
para depois se apagar;
Pois essa saudade é vontade,
e vontade nada mais é impulso,
E mesmo assim há um império que pesa
por sobre os joelhos e povoa ecos e vozes
sempre nostálgicos, que desperto e emigram,
fugindo como pássaros que dispersam,
desaparecendo pela linha do horizonte enevoado,
fazendo tudo se deflagrar enquanto vão.

sábado, 30 de outubro de 2010

Canção ao Einhleuchtend

II

E o que dizer desta luz tão fraca
que ascende antes de se pôr
para o firmamento de todas as coisas?
O lampejo, a subta fagulha inerente
a todos os homens! Que no entanto, não dão conta...
O abismo não é para qualquer um.
Podes tu ver a imensidão do cume
e sentir a pequenez que te abranges tornar-te
suficientemente miserável para nunca encará-lo frente-a-frente;
Mas do alto, como tu bem esperas, pode-se constatar
a grande imensidão escura que te proclamas.
Ama, meu caro, a queda.
Ama, pois nisso, ama-te a ti mesmo!
(porquanto perdurar tua estadia entre o vale);
Imerso entre as trevas, até o fundo de tua alma,
de teu apelo... Pois é somente do topo que consegue-se
encarar abruptamente o âmago do abismo,
constatá-lo como um igual, e compreender seu
Real perigo e sentido.
Quero, ignóbil amante, que entendas
acima de todas as coisas,
somente aqueles que têm asas têm o direito de cair.




terça-feira, 5 de outubro de 2010

Mítica

Mítica
....................................A Igor Roosevelt

"Apaguem as luzes, eu Quero sofrer!"
Gritou o homem embravecido;
Mas as luzes não se apagaram...
Não se apagam, elas, quando bem entendemos,
Apagam-se quando intendem a si
e às próprias intenções (de Fim),
Desfazendo-se em trevas, e som;
Sem luz, transmuta-se, reflexo estrelado
d'uma Rodovia que leva, tortuosa,
à algum lugar... Que não se quer saber.
E grita, com sua voz, tão sua,
impropérios de ninguém;
Brado de um homem louco
que desafia seu humano instinto ao Nada.
Enquanto sofre, desesperado,
empiedando-se e, contorcendo
sua exclamação enraivecida; revira-se
a Luz que atinge os seus olhos.
"Apaguem a luz...!"
E no entanto, não se ajoelha
em sua revolta mais que singela,
abre com as mãos o dilema,
em sua fenda árida e pueril.
Entorta o rosto e o gesto,
inclinando-se para frente,
para baixo, em direção ao vaporoso claustro
que o encerra, e não o deixa encerrar;
(A sua Dor, o seu Lamento, a sua Condição-Humana)
E negando Sua Fé, por entre os dedos,
ajoelha-se na sua contradição.
Já finado, retorna à Terra,
Derrotado e derrotador de seu absurdo
que vai além do indenominável,
Torna o rosto em sua expressão fatídica:
"Por favor...!"
E escorre, como se do peito aberto,
aquela ausência que o faz girar
para que não seja visto,
Para que Reveja, refletido, a Luz que não se apaga,
E constate, em espanto, sua fonte.
A luz está contida em seus olhos.